domingo, 21 de abril de 2013

Perseverança


A princípio eu não entendi. Era como se acordasse de um sonho. Via diversas pessoas conhecidas ao meu redor. Amigos e familiares, mas parecia que eles não podiam me ver. Procurei chamar por alguns, entretanto eles também não podiam me ouvir. Estava todos reunidos em volta de algo, e me aproximei para ver do que se tratava. Havia um caixão, e dentro dele, um corpo rodeado de flores. Foi então que compreendi: aquele era o meu corpo e eu estava no meu velório.

Lentamente, comecei a me lembrar... Eu havia optado por abrir mão da vida, que sempre me doera tanto. Mas agora não sabia o que fazer e nem para onde ir. Decidi ficar por ali, pois me ocorrera que se algo ou alguém fosse me indicar o caminho, deveria me procurar próximo ao meu cadáver. Eu o havia abandonado, mas era a única referência que eu tinha da minha posição nesse mundo. Minha consciência sobreviveu ao meu corpo, mas, até onde eu me lembre, não existia antes dele.

Acabaram de enterrar meus restos mortais. Estranho falar dessa forma, levando em consideração que minha ideia de "eu" era aquilo que eu via no espelho todos os dias. Me sentei sobre a sepultura, e continuei a esperar pelo que faria a seguir. Não havia mais ninguém no cemitério, e permaneci onde estava. Começou a chover, mas eu não sentia a chuva. Sei que estava ventando, pois via as árvores se moverem conforme o crepúsculo se abatia a minha volta. Escureceu. E nada acontecia.

Depois de alguns dias, vieram trazer flores. Fico pensando, de onde tiraram essa tradição? No que isso poderia me ajudar? Mais alguns dias depois, alguém muito próximo veio trazer lágrimas. Me comoveram, mas também não podiam me ajudar. Acho que chorei também, mas não tinha mais glândulas lacrimais. Muito tempo passou e nada aconteceu. Desespero e solidão. As coisas não eram tão diferentes após a morte, afinal.

Acordei em um quarto de hospital. Conversaram comigo e me disseram que os medicamentos haviam me deixado em coma por alguns dias. Não contei a ninguém sobre meu sonho. Aliás, não conversei muito sobre nenhum assunto, com ninguém. Quando tive alta, me tranquei em casa e procurei minha arma em cima do guarda-roupas. Ainda bem que era apenas um sonho. Os remédios falharam, mas eu ainda tinha o plano B.