sábado, 30 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
A Dor Que Dói Mais
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros
terça-feira, 26 de junho de 2012
"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."
Jack Kerouac
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Por que eu odeio Futebol
Quando eu era criança, eu não curtia futebol porque geralmente eu preferia outras atividades, como videogame, livros, histórias em quadrinhos e bonecos de ação. Mas não odiava. Até jogava de vez em quando, quando não tinha nada melhor para fazer.
Minha mãe dizia que eu era de um determinado time, mas eu não entendia muito bem a lógica disso. Por exemplo: eu sabia que era brasileiro, pois nasci no Brasil e em uma guerra eu deveria defender meu país ou, no mínimo torcer para que nosso exército vencesse. Assim, eu até entendia o conceito de torcer para o Brasil na Copa. Mas não entendia porque deveria torcer contra o time do meu colega de classe ou de bairro.
Conforme fui crescendo é que comecei a pegar raiva. "Você não gosta de futebol? Como assim? Não tem time? COMO ASSIM?"
Nunca fui de fazer algo só porque os outros faziam. Nunca tive comportamento de manada, de gado. E, portanto, a frase "como não tem time? Todo mundo tem" me irritava profundamente. Sempre achei idiota esse negócio de "todo mundo isso, todo mundo aquilo". Para mim era (e ainda penso assim) coisa de gente sem personalidade.
Até hoje não entendo o que leva uma pessoa a tripudiar sobre outra quando seu time ganha. Nenhum dos dois estava em campo. Nenhum dos dois ganhou ou perdeu absolutamente nada. Como uma pessoa pode depositar tanto em algo que depende de pessoas que nem se importam em ganhar ou perder, já que muitas vezes o resultado do jogo é acertado previamente, nos bastidores?
Isso porque nem estou citando o pai de família que muitas vezes deixa de comprar comida, para comprar camisas oficiais do clube para si e para seus esfomeados filhos.
Com o tempo, fui aprendendo muita coisa. E uma delas é que além dos meus motivos pessoais eu tenho outros bons motivos para não gostar de futebol.
Um pouco de História
O futebol era utilizado na Inglaterra da Revolução Industrial como uma ferramenta de controle dos operários e como uma válvula de escape para as tensões das longas jornadas de trabalho pesado. No Brasil ele foi introduzido por Charles Miller, filho do escocês John Miller, funcionário da São Paulo Railway Company, uma empresa inglesa. Depois de estudar na Inglaterra para gerir as empresas inglesas no Brasil, retornou ao país e ingressou no São Paulo Athletic Club em 1894, o time dos funcionários da São Paulo Railway.
A partir da década de 20 o futebol já contava com grande aprovação nas camadas populares, não só com sua proletarização na Inglaterra, mas também com a identificação e a fidelidade dos trabalhadores com os times que representam as várias associações das mais diferentes origens sociais (1). Durante o governo populista de Getúlio Vargas, os meios de comunicação começam a dar grande espaço ao futebol, que cresce cada vez mais no gosto popular. Afinal, é um esporte que só precisa de espaço e um bola, sendo assim bastante acessível à população das camadas mais pobres. Com o tempo, o futebol vai se tornando a "paixão nacional". E nem de longe esse foi o único ditador que usou o futebol. Mesmo Hitler usou esse "esporte das massas" como máquina de propaganda política e diplomática (2).
Mas por que o futebol emociona tanto?
O motivo de tanta comoção é a sensação de fazer parte de algo maior, transcendental... assim como todas as outras formas de anestesia intelectual, como a religião ou o fanatismo político, por exemplo. Gritar junto com milhares de pessoas te torna maior do que si mesmo. Te dá o anonimato da multidão, onde você deixa de ser responsável pelos seus atos e deixa de ter de pensar ou ter opinião própria sobre aquele assunto. Foi assim que a ditadura incutiu um falso patriotismo na mente do brasileiro. Em uma época de insatisfação popular, criaram o hino pseudo-patriótico "Noventa milhões em ação. Pra frente Brasil. Salve a seleção!".
Em momentos de jogo, quando a mídia usa todos os meios de comunicação para dar uma ênfase absurda ao futebol, até pessoas cultas e inteligentes começam a esbravejar provocações aos torcedores do time adversário. Até mesmo pessoas que estavam momentos antes preocupadas com os rumos da política nacional abandonam todas as preocupações e começam a gritar frases curtas e mal construídas para incentivar seu time (como se o time fosse ouvir). Se pessoas com acesso à educação se deixam alienar dessa forma, o que podemos dizer da grande massa de analfabetos funcionais e pessoas cuja cultura é ditada pela mídia televisiva? Os intelectuais até podem se permitir o "guilty pleasure" do futebol e depois retornar às suas reflexões, mas o povão jamais reflete justamente por ter tantas distrações fabricadas para colocá-lo em uma espécie de transe, onde a briga entre torcidas é justificável e a passeata pelos seus direitos não.
Portanto, meu ódio não é direcionado ao esporte em si, mas à cultura em torno dele que existe no Brasil. Brigas entre torcidas, depredações, discussões que não levam a lugar nenhum e, principalmente, desvio de energia que deveria ser focada em outro lugar.
Se as pessoas lutassem pelos seus direitos como lutam por seus times, as coisas estariam bem melhores. Mas é exatamente para evitar isso que se gasta tanto dinheiro com estádios e campeonatos. Para que as pessoas se dividam em times e nunca se juntem na indignação contra a opressão.
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Notas
1 - HOBSBAWN, E., RANGER, T. (org) A Invenção das Tradições, Rio de Janeiro: Paz e Terra
2 - MURRAY, B. Uma História do Futebol, São Paulo: Hedra, 2000 p. 95
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